abrigos / shelters
caneta tinta-da-china, cor digital / black ink, ditgital colour
Diferentes tipologias de abrigos usados ou transformados por pessoas sem-abrigo no cantão de Vaud, na Suíça.
Different types of shelters used or transformed by homeless people in the canton of Vaud, Switzerland.

Illustrations made for the research project:
"Living in a precarious situation: an ethnographic study of the socio-residential trajectories, experiences and resources of people living in non-ordinary housing in the canton of Vaud"
Habiter en situation précaire : enquête ethnographique sur les trajectoires socio-résidentielles, les expériences et les ressources des personnes recourant à l'habitat non ordinaire dans le canton de Vaud
Afin de pallier la pénurie de logements abordables et d’éviter le dénuement extrême de la rue, des personnes recourent de manière plus ou moins durables à des formes d’habitats non ordinaires et précaires (véhicules, camping-cars, mobil-homes, caravanes, abris auto-construits, tentes). Basé sur une enquête ethnographique de quinze mois menée en Suisse romande entre 2022 et 2024, la recherche documente et analyse les trajectoires socio-résidentielles d’une vingtaine de personnes en situation d’habitat non ordinaire et met en évidence les possibilités, les conditions et les expériences d’habiter en marge du logement standardisé, des formes institutionnalisées d’hébergement et de la rue.
Leader team: Maude Reitz. Observatoire des précarités, Laboratoire de recherche santé-social (LaReSS), Haute école de travail social et de la santé Lausanne (HETSL | HES-SO).
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Processo
As minhas ilustrações resultam da leitura de entrevistas que foram feitas a essas pessoas, nas quais descrevem os seus abrigos e quotidianos. São desenhos que imaginam esses locais, cruzando os relatos, por vezes, com imagens de referências dos locais em questão. Optou-se por registar pistas da presença e apropriação humana – coberturas, colchões, objectos pessoais – e por não se desenhar corpos. Realizei uma versão só a traço, a preto e branco, e outra preenchida com uma palete de cores « pastel » não realista, que oscila entre os amarelos, rosa, azul e cinzentos.
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Motivação pessoal
Quando cheguei à Suíça em 2008, ninguém pedia na rua. Lembro-me de ser proíbido. Passados poucos anos, chegaram os Roms com as crianças às ruas de Lausanne. O filme l’Abri, de Fernand Melgar (2014), retrata o quotidiano trágico de pessoas sem abrigo durante o rigoroso inverno local, que lutam para conseguir um lugar por uma noite apenas dentro de um bunker. Anos depois, no pós-pandemia (2023), acumulam-se tendas debaixo dos viadutos que atravessam o Rhône em Genebra. Tudo isto ressoa com a mudança trágica, também, da minha Lisboa nos últimos 20 anos, e da angústia com que me deparo com o acumular de cartões, sacos-camas e aldeias de tendas que têm surgido, intensamente sobretudo depois da pandemia, provocada também pela gigantesca crise da habitação em Portugal.
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Todas estas minhas observações das cidades onde vivi e que estudei se ligam às questões que a Maude Reitz aborda na sua investigação. Ela traz à luz do dia vários tipos de ocupação de pessoas em situação grave de precariedade e sem tecto, na região do cantão de Vaud, revelando discretos abrigos nocturnos não autorizados, neste país que é a Suíça – um dos mais ricos e onde existe maior qualidade de vida, mas também um dos mais implacáveis nas suas leis de anti-imigração, contrastando precisamente o mundo dos bancários e ex-pats com o dos sem-abrigo.
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